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sábado, 24 de outubro de 2009

A Sustança do Amor

A Sustança do Amor

          Amar é, antes de tudo, uma decisão. Decdir estar com alguém, estar com alguém; não apenas porque gosta.

          É uma decisão, e por isso, deve ser racional – amor não é paixão. Paixão se sente, amor se vive. Paixão é inconsciente, amor é consciente, fruto das nossas escolhas diárias. Escolher abrir mão daquilo que quer, daquilo que pensa.

          Escolher esquecer os erros de alguém, acalmar-se na hora da raiva, pensar duas vezes antes de tomar alguma atitude; porque, em um amor, não existem duas pessoas, mas sim um casal.

          O amor só existe quando se fala em casal, quando se fala em um; união. É tomar decisões não pensando em si, mas em outro. Abrir mão de si mesmo, debater aquilo que, pra você, é óbvio.

          Derrubar seus paradigmas, quebrar barreiras, saltar muralhas – isso tudo o amor é capaz de fazer – não a paixão.

          O amor é aquele que se fortalece não depois das dificuldades, mas durante elas. O amor é aquele que faz parar as discussões, e nos faz olhar um para o outro – e, repentinamente, ambos resolverem abrir mão do que querem, e assim, chegar num consenso.

          Quando a discussão pára no meio para ‘não-brigar’, não existe amor. O amor é aquele que nos leva a uma compreensão do que o outro quer. Pra quê? Pra viver em comunhão.

         

          É, o amor também é comunhão. Na verdade, a comunhão é a principal parte do amor. Comunhão pressupõe harmonia – não paz. Comunhão pressupõe a busca de algo maior, superior; algo ideal, na prática, inalcançável.

          E, a inalcançabilidade, não provoca desilusão, mas força. Porque, quando ambos se unem por esse ideal, um dá suporte ao outro. E isso é comunhão.

          Indo mais longe, não há comunhão entre duas pessoas. A comunhão depende, necessariamente, de se ter três membros: ele, ela e Ele. Sem Ele, não há base, não há sustança, como diziam os antigos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ayesh e Rudá (III)

Algumas horas depois, ele finalmente a encontrou. Quem a visse, pensava que nada havia acontecido, era como se o fim não a abalasse, e nada fora mais do que algumas palavras. Algo triste, porém necessário.

Relutando em ir ao encontro dela, Rudá a via gesticular como sempre o divertia, nos poucos momentos que passaram juntos.

           

            A festa já havia começado quando ela chegou. Como quem não quisesse nada, cumprimentou a maioria dos desconhecidos, se arrependendo tremendamente de ter ido lá. Não sabia o que estava pensando, mas parecia que toda célula do seu corpo parecia querer sair correndo daquele lugar.

            Quando o viu, estava do mesmo jeito de sempre. Nem parecia aquele Rudá que era quando estava conversando com ela – quando estava com seus amigos, se transformava totalmente. Era como se ficar parado ou falar baixo fossem pecados capitais. Deveria estar contando mais uma daquelas histórias da faculdade que só ele sabia contar.

Não que as histórias em si tivessem algo de especial, mas Rudá sabia como contar uma história – fatos corriqueiros se tornavam motivo de gargalhadas, ou motivo de discussões acirradas. Estava no meio de uma delas quando a viu. Ela estava – não, ela não estava, ela era – linda. Aquele vestido lhe caía bem, combinando com esmalte, e, definitivamente, o seu rosto quase vermelho de apreensão faziam de Ayesh a garota de sua vida.

Sorriu, como se pedisse para que ela lhe esperasse, terminou a história e desvencilhou-se do pessoal como se estivesse patinando no gelo. Chegou, ainda sorrindo, e contemplou de perto aquele rosto.

-Que foi?

 

Ainda perdida na discussão, Ayesh não tinha reparado que Rudá estava do seu lado, o que fez o garoto rir. Esse riso foi como um despertador pra ela. Ao vê-lo, arregalou os olhos, e, se a presença dele ali  a deixasse mais surpresa, não demonstrou.

Ou seja, nenhuma novidade – ao menos para ele.  

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ayesh e Rudá (II)

Branco. Realmente, o teto ainda estava branco, como se tivesse sido pintado ontem. Não que fosse importante essa informação, mas era a única informação que Rudá conseguia processar, e, provavelmente, a única coisa que gostaria de pensar durante todo aquele dia. Não queria pensar em mais nada. E quanto mais pensava em não pensar nada, sua imaginação lhe pregava cada vez mais peças. As coisas mais bobas, mais normais no seu quarto o faziam lentamente aproximar o pensamento dela. E sempre que reparava, já estava perdido.

E voltava a forçar sua concentração no teto. Branco como um algodão-doce. Assim, pelo menos os algodões-doce normais, não essas coisas de cores berrantes de hoje. Estranho, pensar em cores berrantes. É uma expressão um tanto quanto bizarra. E era assim que Ayesh costumava se referir a ele, bizarro. Sempre. E ele já tinha acostumado. Com ela, com o jeito dela se expressar, gostava disso, de ser diferente. Mas…

Realmente, o teto era maravilhosamente branco.

Nesse ciclo vicioso, o tempo passou, e, quando viu, já era noite – e nada tinha feito. Sabia dos deveres acumulados, das provas que ainda estavam por vir, mas não podia esperar mais. Não podia crer que tudo ia acabar assim, tão de repente.

Ayesh sempre fora surpreendente. E isso foi o que o atraiu desde o princípio – mas não teve mais poder do que aquele olhar dela. Não que fosse especial para ele, mas o olhar dela lhe parecia, sem ter como usar outra palavra, bizarro.

Se ela tentava, e conseguia esconder os seus sentimentos pelas suas atitudes, não conseguia pelo seu olhar. Quando ela olhava dentro de seus olhos, Rudá não conseguia manter aquele olhar por muito tempo – não era como se ela o lesse pelos olhos, mas como se ela já soubesse, antes mesmo de agir, qual seria a reação dele. E, mesmo assim, aquele olhar esboçava, lá no fundo, um traço de medo.

Não, ele não iria deixar assim.

sábado, 22 de agosto de 2009

Ayesh e Rudá (I)

Afinal, as coisas não eram tão simples assim, ele tinha que entender.  A garota resmungava, perdida em seus pensamentos. Porque, bom, eu fui clara. Ayesh já estava cansada disso, não queria mais voltar ao mesmo ponto. 

Não é que ela era sádica e não gostava dele. Na verdade, sequer considerava a possibilidade de não gostar dele. Mas Rudá tinha que entender: Ela não queria ficar com ele. Só isso. Não precisava saber o porquê. Só precisava concordar. Quem visse a situação poderia até achar que ela não tinha sentimentos e que estava brincando com o garoto - mas lá dentro, ela sabia que não era bem assim.

E ele, bom ele sabia disso quando insistiu em ficar com ela. Ela não queria, mas bom, Rudá fazia jus ao nome. Ele não tinha nada de especial, mas, de certo modo, sabia usar algumas palavras. E isso não podia acontecer de novo - de maneira alguma ela iria ser levada por aquelas palavras doces que prometiam um mundo diferente.

Não, ela estava bem aqui - não exatamente bem, mas se sentia segura. Onde ela estava, conseguia se proteger, e tinha controle da situação. Pelo menos, até certo ponto; não que se sentisse bem fazendo aquilo.

Com Rudá, ela era outra, fazia todas as loucuras que sequer imaginava que podia fazer - tudo isso sem pensar duas vezes. Não sabia o porquê disso, o como se envolvera com ele, e o tanto que ele parecia amá-la. 

Amor. Era essa palavra que a assustava, a fazia arrepiar. Não podia pensar em coisa pior pra fazer do que se apaixonar por alguém justo ali, naquela hora. Tinha tanta coisa a fazer, tanto que planejara; não podia simplesmente jogar tudo pro alto como se nada fosse - eram seus sonhos, poxa! Não. Não iria se entregar aos braços de um menino - pois era isso que ele era, um menino. Apesar de mais velho, apesar de fazer isso e aquilo, por dentro ele era apenas um menininho, bobo e apaixonado.

Tsk. Exatamente aquilo que tanto desprezava nele era aquilo que despertava o seu sentimento. NÃO! Sentimento não. É confusão, isso. Matutava ela. São os hormônios, ora essa! Só podia ser culpa daqueles malditozinhos mesmo. E, de repente, tudo virava desculpa.

Mas ela tinha que evitar aquele idiota. Nem que, para isso, ele tivesse que detestá-la. Porque ele não merecia sofrer lá na frente, nem pagar pelos erros dela. Melhor o seria se, ao invés disso, ela cortasse esse amor boboca dele logo no começo. E assim o faria.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Relato de uma Imensidão Repentina (III) -Final

Esperança qual não de ser liberto dessa opressão, dessa prisão que me vejo, mas de encontrá-la de jeito que, se não está na mesma situação que eu, deseja estar.

Nesse dia, ah, esse dia. Escute o que eu digo: você saberá quando esse dia chegar - quando eu e ela estivermos enfim, juntos, na mesma sintonia, quando nossos pensamentos se encontrarem e nossas bocas se colarem.

Porque, esse dia, não irá acabar. Passarão as horas, passará o tempo, passará a chuva, mas o pôr-do-sol não chegará. O dia em que até mesmo a mais escura das nuvens, o asfalto mais duro e a mais cinzenta das cores serão alegres.

O dia em que aquele vento soprar, e os problemas, as dores e as queixas vão desaparecer de nós - o dia que que nós seremos um do outro.

Porque, nesse dia, até mesmo o mais vagabundo dos corações, ao nos ver juntos, anseará por aquela sinergia. E, finalmente, o amor não será mais motivo de minha prisão.

E eu poderei demonstrar esse verdadeiro eu, sem estar escondido debaixo de um falso nome, de um falso rosto ou de falsas memórias.

Porque, de tudo que eu digo, prevalece o sentimento - em detrimento dos fatos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Relato de uma Imensidão Repentina (II)

HÃM! Ainda bem, então, que não pisquei os dois, porque hoje já me sinto sem chão. É como se eu tivesse tomado um soco na boca do estômago - e o ar não voltasse [nunca] pro meu pulmão. Sem ar, sem conseguir respirar é que eu falo. Não porque tenha algo a dizer, mas porque o silêncio dela me incomoda.

É como se [todos] os segundos em que não nos falamos fossem fazer falta algum dia, lá na frente, quando ela não estiver mais ao meu alcance.

Nesse meu desespero, nessa agonia por falar, acaba que, muitas vezes, falo bobagens. Aquelas coisas idiotas, que nem para si mesmo deve-se guardar - e o assunto morre mais uma vez.

Não lembro de ter tido tanto silêncio entre eu e alguém antes; nunca me pareceu tão difícil, tão complexo manter uma conversa com uma pessoa. É como se, no anseio de falar tudo se perdesse; e faço papel de bobo, mais uma vez.

Mas o mais impressionante disso tudo, é que ela não nota. Ou, se nota, ao menos tem um pingo de afeição por mim, e, seja por dó ou qualquer outra coisa, ela apenas se faz de desentendida, por alguns instantes.

E é essa atitude, que, embora não demonstre [com certeza] que sou correspondido, ao menos prova que, não estou de todo fora do jogo - ainda há esperança para mim.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Relato de uma Imensidão Repentina(I)

[Só porque eu]Perco a poesia quando lembro de você, toda vez que vejo um papel em branco, o que antes era prazeroso se transformou hoje numa horrenda batalha contra o tempo, contra o espaço, enquanto tento descrever o que se passa.

Não pode ser esse [só] um único sentimento, não pode ser que apenas uma palavra provoque tudo isso, é simplesmente inconcebível. Não é possível que eu esteja fraquejando, que eu esteja tão reticente por culpa de apenas uma palavra.

Até porque eu sempre tive domínio sobre todas elas, sempre cosnegui usá-las para o que bem entendia, até mesmo já brinquei com elas - hoje não. Hoje, não.

Até que me vi cercado por uma delas. E, se um dia, eu ri delas, hoje, é ela quem ri de mim. Porque essa palavra me pegou, me passou uma rasteira e me deixou de joelhos - isso sem que eu sequer piscasse um olho.